Reflexões sobre Imagem de Moda sob a ótica do pensamento Flusseriano
De quão efêmero consolidou-se, eis que haveria de ter um elemento compensador que a tornasse mais palpável e permanente, que deixasse lembranças e referências frente à sua abundante e vasta obra: que fosse desejada com saudade, para que numa não tão longa distância, pudesse retornar e brilhar novamente em meio a conceitos distintos e idiossincrasias.
Partindo assim do pressuposto que \"os seres humanos são extremamente visuais e que no mínimo temos cinco vezes mais terminações nervosas que ligam nosso cérebro aos olhos que aos ouvidos ou as narinas\" (SOUSA 2007), é fato que um sistema como o da moda, que emerge com tanta rapidez, necessitaria de um mecanismo que pudesse ser vislumbrado e captado também com mais velocidade para uma maior apreensão e, portanto, consumo.
As imagens de moda a serem emitidas para um possível receptor são constituídas através de uma intenção, onde são imbricados diferentes componentes que ressaltam o apelo da mensagem a ser constituída visualmente, como reflete Darbon (in SOUSA).
...aspectos mecânicos ou (...) físico-químicos (...) tem conseqüências imediatamente sensíveis sobre a reprodução da realidade que se constrói através de uma foto (...) enquadramento (...) formato do negativo (...) atitude do fotógrafo em relação ao seu sujeito (...) a noção de realismo é essencialmente cultural (...) o suposto realismo fotográfico é algo do qual temos dificuldade de nos desprender. (p.123)
Para essa composição, além da base constituinte dos traços culturais do próprio fotógrafo, permeiam estratégias de marketing e demais mecanismos da publicidade (fotografias de moda publicitárias) que, aliados às referências de uma equipe de estilo (editores, stylists, beauty artists, designers gráficos, diretores de arte etc.), ficam responsáveis em fazer com que essa mensagem fotográfica chegue e cause no seu consumidor final o interesse de compra.
Forma-se assim a reflexão acerca de um código de ética que ultrapassa os limites individuais e adentra um conglomerado que responde às responsabilidades globais da ditadura estético-comportamental e do sistema capitalista.
Desde o final do século XIX, as revistas reproduziam os modelos dos grandes costureiros da alta-costura que eram disseminados por todo o mundo, antes por desenhos, o qual predominou até meados do século XX e depois com a invenção da fotografia. Assim as publicações da Harper\'s Bazaar fundada em 1867, e da Vogue em 1892, serviram como fontes importantes de difusão , privilegiando, especializando-se e dando enfoque ao que primeiro surgiu como manifestação do efêmero.
De tal forma que, com a profissionalização desses veículos e com a concorrência das mesmas, cada uma delas começa a engendrar e vender as imagens dos diversos criadores e demais potências do luxo (os holdings), elaborando toda uma política de mídia, publicidade, relações e estilos, destinados ora a um público consumidor que em sua maioria absorve o valor da marca como forma de ascensão (lifestyle), analfabetos da imagem como mensagem subliminar, ora como referências visuais e observatório de sinais para os demais formadores de conceitos dos mercados em promoção, que exercitam na maioria dos casos o calco como proliferação de tendência.
Assim as informações predominantes advindas das representações imagéticas de moda são divulgadas em essência (na maioria das vezes) dos mesmos pólos (até quando não surge um outro como novidade) acabando na unilateralização da visão de maneira ditatorial e absolutista, já que a marginalização ao sistema tendere resulta na provável não-obtenção de lucros.
Em relação a esses diferentes consumidores do produto final, o que lhes é mostrado está condicionado a um estudo sócio-comportamental (pesquisas, gráficos, levantamentos quanto a perfil, gosto, poder aquisitivo etc.) que imiscuídos de maneira cabal fazem com que, em meio a tantas opções por fim, torna-se \'A Escolha\'. Surge então o sentimento de completude e satisfação total, cunhado com um êxtase sem precedentes no efetivo da compra: a plenitude.
Pensar que esse anseio é constituído através de uma imagem composta nos faz refletir o quanto ela é ontológica e periclitante; a tecnologia da composição desenvolveu o poder de criar apetências e conspirações que, segundo Barthes (1984,27): \"Imaginariamente, a Fotografia (aquela que tenho a intenção) representa esse momento sutil em que, para dizer a verdade, não sou nem um sujeito nem um objeto, mas antes um sujeito que se ente tornar-se objeto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese): torno-me um verdadeiro espectro\".
Essa metaconsciência mesclada com a ingenuidade de um falso poder adivinho, faz com que todos se sintam integrantes e participantes da sociedade do espetáculo, congêneres a seus pares, não-marginais. Através das artes do espetáculo da moda (esta vista no setor têxtil), representado aqui pelos desfiles, que são estruturados através do incisivo zeitgest, moldam-se às formas cotidianas dos diferentes grupos em complexas atuações: é consumado no ato dessa grande representação teatral o marco que impulsiona as demais bifurcações do sistema, até o seu produto mais pobre de reprodução.
Concomitantemente elabora-se como esse sentido poderá ser renovado e instigado novamente, num ritmo frenético baseado na cultura do descartável: as imagens retratadas há algumas temporadas atrás nos soam bizarras e vergonhosas, a representação passada é vista com uma áurea de culpa frente às inovações da atualidade, acarretando numa perseguição ao novo. A matéria percorre uma trajetória análoga, mas o modus operandi da sua manifestação em âmbito tecno-cultural necessitam ser atuais, é o precípuo do sistema. Assim, as roupas, suas modelagens e padronagens podem e são muitas vezes revisitadas, mas a forma como são demonstradas imageticamente sofrem modificações, num continuo fortalecimento do objetivo maior, o consumo.
De acordo com o pensamento flusseriano, \"todo artefato é produzido por meio da ação de dar forma à matéria seguindo uma intenção\" (Flusser 2007); minuciosamente às imagens de moda, ao informarmos os preceitos da sua construção, a qual esta concretiza uma possibilidade de uso, esse banco de dados se faz modelo e informação. Fabricou-se aí um parâmetro, um fio condutor a ser seguido: o fruto das \"manifestações da ação humana de tentar impor sentido ao mundo por meio de códigos e técnicas.\" (idem ibidem).
E mesmo esse sistema, com sua falsa percepção de trazer o inusitado, só o faz com a coacção para reimplantar o semelhante, o que se torna específico e autóctone acaba por não transformar-se em moda: o igual para os diferentes iguais onde \"a natureza leva as informações para a cultura que as devolvem para o mundo em forma de resíduos, de sucatas, e estas voltam para a natureza e todo o ciclo é re-iniciado.\" (SANTANA, 2003).
Tem-se então o totalitarismo programado do pensamento em superfície , onde a ditadura parece menos hostil e todos se transformam em meros objetos, passamos de consumidores a consumidos. A não-educação imagética acarreta na indecisão da liberdade histórica que implica no maior poder de alienação. As tendências criam uma forma de estado despótico, hipinogênico, onde se mudam os gostos, imperam-se os sentidos, transformam-se as estruturas do hábito, burlam.
Comezinha relação que na totalidade aparenta-se banal e digressiva, mas em seu âmago engendra os pensamentos e opiniões. Assim, consumimos e confeccionamos fotografias de moda como um astucioso articulador de armadilhas , veiculando-as com características artísticas simulando conceitos apolíneos, vendendo revistas e produzindo editoriais com o que há de referências mais contemporâneas no mercado, atingindo por fim os nossos objetivos capitalistas para acalentar o nosso ego.
Em analogia as imagens rupestres onde estas eram criadas com o objetivo mágico de auxiliar nas caçadas, hoje estas aparecem com o mesmo intuito encantado, o que a diferencia é a mudança enquanto objeto; não mais a caça animal, mas ao próprio ser humano enquanto espécie consumidora.
Nossa idealização de progresso, de imagens cada vez mais \"vanguardistas\", com conceitos cada vez mais \"rebuscados\", dentro do pensamento evolucionário, não permite a reflexão do que aquilo como informação padece nas mentes de programados e de nós, programadores. O desafio de ter a idéia a partir de recursos mínimos (tempo, capital, material criativo etc.) para a sua concepção toca o seio inventivo, onde oriundo do nosso próprio ventre, esse produto final torna-se um filho. Cuidado, homenagem, contemplação: dolorosa aporia entre o certo criativo e o doloroso racional próprio daqueles que cultivam a necessidade de colonizar os demais, seja com conceitos, ideais estéticos ou modos de comportamento.
O sentido da continuidade histórica e de sua consciência burla a representação da forma e então, somos levados a produzir para mais, no sentido novamente de fazermos parte, de sermos também história.
Sobre a autora:
Diane Lima é designer de moda e sócia-proprietária da produtora D\\\'Malicuia - Produção e Design de Moda. É formada pelo Senac Bahia em estilismo e produção de moda e graduanda do 8º- semestre em Design de Moda na Faculdade da Cidade do Salvador. Conta com alguns títulos publicados no site Design Brasil, Moda Brasil e Coloquio Nacional de Moda.


